sexta-feira, 6 de julho de 2012

Devaneios


Chego do trabalho cansado com aquela dor na perna. Esta dor me persegue já faz algum tempo, não creio ser nada demais, apesar do forte incomodo, pois nenhum médico diagnosticou o problema. Deito no sofá, bebo uma long neck gelada como se fosse um analgésico. Mas ela não cumpre bem seu papel, então, eu tento só fechar os olhos e apagar.
É quando tudo se movimenta. Enquanto a cortina range em parte com o chão e em outra com a janela, a lua brilha mais ardente e calorosa do que o sol. Esta claridade reluz por toda a sala numa espécie de câmara especial, que é favorecida pela falta de moveis que não ocupam a minha sala, de forma que ilumina a minha imaginação.
Entro em uma espécie de transe. Não sei se já dormi, nem se estou embriagado ou até mesmo destrambelhado. O que sei é que não quero sair deste nirvana onde eu entrei. Meu inconsciente tenta vigorar ,enquanto meu ego procura o controlar, de modo que não paro de vislumbrar loucuras em cada esquina da minha mente , antes, sempre vazia.
Primeiramente, penso em uma corrente amarrada em meu pé e mão prendendo-me rente ao chão. Estou em um lugar obscuro e negro, já não posso mais conter meu medo. Sinto um arrepio em minha nuca em intervalos irregulares, parecendo que há um animal feroz por trás de minha cabeça, embora, aparente fazer parte dela,tendo em vista que somente, em alguns momentos, ele se liberta e , logo, me dá calafrios. E o silencio?! O silencio me é peculiar, quase sempre não consigo escutar o som do silencio no meu dia-a-dia; isto me sucinta algo do tipo... alegria? É como se fosse magia, ou até mesmo bruxaria, porém o que me surpreende é o quão estou contente. Não de estar nesse lugar, mas porque nele posso pensar e sentir, sentir e pensar. Conscientizo-me. BUM! Descubro, portanto, meu inconsciente amarrado e impotente, mas sempre persistente. 
( Não sinto minha perna doer).
Eis o grande momento, liberto meu pensamento das correntes; enquanto meu ego para pra descansar, o cavalo inconsciente dispara sem parar. Vejo-me com meu tirânico chefe e irmão em um enterro; olho para o falecido, ele me lembra um grande amigo, fico entristecido, então , abraço ternamente o meu chefe-irmão; logo após isto, vamos para a prece. A comoção é geral, todos chorão com pesar. A voz gélida do padre         ecoa pelo recinto ressonando entre as pessoas como se estivessem a beira do abismo,como se o mar ao chocar-se com as pedras,  impusesse nossa presença dentro dele. Aflitivo. Concentro-me; observo durante a prece como aquele amigo assemelhava-se ao meu chefe-irmão. É então que percebo a distorção. BUM! Descubro , portanto, meu ego acordado, censurando o que não deveria ser censurado, talvez, só controlado.
 ( Não sinto minha perna doer).
Saio do cemitério, e me encontro num belo jardim, ensolarado, cercado de mulheres bonitas e que ... flertam comigo! A minha esquerda, uma ruiva, com o charme de uma sexy simbol que toda ruiva tem. A minha direita, uma morena, com sua sensualidade e belas curvas. A minha frente, vejo uma loira, de forma encantadora; ela sorri com o sorriso mais lindo que já vi. Porém, sinto algo estranho. Decido olhar para o sul. Percebo que lá está minha ex-mulher, a mulher de minha vida, que me trocou pelo “cara da contabilidade”, e , como se não bastasse, ela está com ele. Olho mais de perto, reparo que eles estão brigando, ela está triste e corre para os meus braços; envolvo-a em mim; sinto seu cheiro; respiro seu sorriso; relembro-me de seu beijo; prometo dar-lhe o mundo e corrigir meus erros. Entretanto, começo a criticar. Percebo no olhar dela uma lasca de ressentimento e vingança, dispenso minha esperança; deduzo que serei usado, jamais poderia ter seu amor, pois sou extremamente inferior, um pobre inspetor destituído de pudor, que vive escondido cercado de pavor.Racionalizo.BUM! Descubro, portanto, meu superego criticando o meu ego, enquanto eu me desespero.
 (Ainda Não sinto minha perna doer)
Meu despertador toca. Sinto uma sensação de dor no peito que desce para o estomago, além do mais, minha perna doi como nunca, quase não consigo levantar. Levanto e derrubo algumas long necks espalhadas pelo chão. Não consigo me lembrar de nada da noite anterior, no entanto, sinto uma náusea misturada com um aperto no peito inexplicável. Penso se poderia ter sido algum problema ou preocupação,talvez,algum aviso. Dou um sorriso...decido que é só a bebida fazendo efeito por dentro do meu peito. Queria poder saber o que se passa em uma mente em meio a torrente de pensamento que dizem ocorrer durante o sono.
Vejo o amanhecer do dia, ponho-me em partida, para mais uma jornada sem saída, com esta perna encardida como se ela sofresse uma mordida em cada segundo de minha vida.

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